Projeto Céu de Histórias - Ler faz a imaginação voar



O Projeto


Pipas e autores convidados


Ziraldo

Cartunista, escritor e chargista

O MENINO MALUQUINHO

Era uma vez um menino maluquinho.
Ele era um menino impossível!

Ele era muito sabido
ele sabia de tudo
a única coisa que ele não sabia
era como ficar quieto.
Seu canto
seu riso
seu som
nunca estavam onde ele estava.

Se quebrava um vaso aqui
logo já estava lá

Às vezes cantava lá
e logo já estava aqui.

Pra uns, era um uirapuru
pra outros, era um saci.

Na turma em que
ele andava
ele era
o menorzinho
o mais espertinho
o mais bonitinho
o mais alegrinho
o mais
maluquinho.

Era tantas coisas
terminadas em inho
que os colegas não entendiam
como é que ele podia ser
um companheirão.

Ana Maria Machado

Jornalista, professora,
pintora e escritora

Beijos mágicos

As histórias muitas vezes acabavam com “... e viveram felizes para sempre”. Nanda gostava.
Ela sabia que o pai e a mãe resolveram que para serem felizes para sempre era melhor não ficarem juntos. E tinha muita pena.
Mas Nanda também sabia que era feliz para sempre quando passava uns tempos com a mãe – que a botava no colo, fazia brincadeira e tinha uns beijos mágicos que faziam passar qualquer dor de machucado.
E Nanda também era feliz para sempre com o pai, naquele apartamento em que os dois cuidavam um do outro.
Muitas vezes, parecia até que ela era uma daquelas princesas das histórias que o pai contava.
Branca de Neve, ajudando a cuidar da casa dos anões.
Rapunzel, penteando os cabelos para esperar o príncipe.
Cinderela, dançando a noite toda com o príncipe, mas tendo que ir deitar no melhor da festa.
A Bela Adormecida, acordando com beijo de príncipe.

Claudio Fragata

Jornalista e escritor de livros infantojuvenis

A

AR PRA RESPIRAR
NO ALTO DA MONTANHA,
NO RASO DA CHAPADA,
EM QUALQUER LUGAR.

AR PRA VIAJAR
NAS ASAS DO AVIÃO.
AR PRA ANDORINHA
ANUNCIAR O VERÃO!

Leo Cunha

Escritor e jornalista

Ninguém me entende nessa casa!

Desde pequeno eu via meu avô lendo aquele livrão grosso, de capa dura, azul, e ficava imaginando: por que é que o vô nunca acaba de ler esse livro? Será que alguém obrigou o coitado? Será que ele não sabe ler direito? Será que o livro é chato? Está escrito em outra língua? Que mistério será esse?
Até que um dia eu, com meus 8 ou 9 anos, perguntei pra ele:
- Ô, vô, por que é que você nunca termina de ler esse livro?
Ele me olhou com surpresa e diversão:
- Não, Leo. É que eu termino o livro e começo de novo, termino e começo de novo, termino e começo...
E assim, durante 30 anos – de 1964, quando ele comprou o livro, até 1994, quando ele morreu – meu avô leu 25 vezes o Grande Sertão: Vereda. Pra quem não conhece, é um livro enorme e assustador de tão bonito, escrito pelo Guimarães Rosa. Livro difícil, também, cheio de palavras inventadas, de frases inesperadas, de causos surpreendentes.
Aquele livro pra mim foi uma revelação: então quer dizer que a gente podia ler e reler um livro muitas vezes, e cada vez curtir mais ainda a história? Quer dizer que o livro não se esgotava nunca?

Benedito Ruy Barbosa

Dramaturgo, autor de novelas e escritor

Sol Loiro em Céu Azul

A filha queria uma boneca de olhos cor do céu. Haveria uma assim?
(...)
Outra vitrine. Outras bonecas. Iguais às que já tinha visto.
As mesmas caras. Ergueu os olhos procurando no céu o azul dos olhos que a filha queria. Só viu o branco das nuvens.
(...)
Havia algo familiar atrás daquele vidro. Procurou detalhes da vitrine.
Os olhos pararam no cavalinho de pau. Era isso! Tivera um assim, igualzinho, ao tempo dos seus oito anos.
(...)
De repente, viu-se no quintal da velha casa, confinado entre muros negros e altos, lá no bairro da Penha.
Um fundo de cortiço. Para os passos curtos e a imaginação larga
dos seus oito anos, o quintal não tinha tamanho.
(...)
Lembrou-se da boneca. Tirou a cartinha do bolso.
Leu mais uma vez. Sorriu.
(...)
Já imaginava o rostinho feliz da filha, apertando-a entre os braços.
E ele apertando a filha entre os seus.
(...)
Estava diante da primeira loja onde havia entrado. A mesma balconista lá, atrás do balcão. Parou diante da prateleira.
- Dê-me aquela boneca.
Apontou uma pequena. Nem a mais cara, nem a mais barata.
Mas a mais bonita.
(...)
Tomou-a nas mãos. Os olhos, os cabelos, o rostinho ...
tudo como a filha havia descrito!

Roseana Murray

Poetista e escritora de livros infantojuvenis

PAPÉIS DE SEDA

O menino espalha
pela mesa da sala
papéis de seda,
cola, varetas, barbante,
e por um instante
a casa se transforma
numa fábrica colorida de pipa.

O tempo corre, apita,
se agita,
enquanto o céu espera.

Claudio Fragata

Jornalista e escritor de livros infantojuvenis

H DE HOJE

Houve um tempo em que ontem se escrevia hontem.
Hoje ninguém mais escreve ontem com H.
Mas hoje até hoje se escreve hoje.
Será que amanhã vão tirar o Hde hoje?
Amanhã tem H, só que não é na frente, é quase no fim.
Não é como recheio, que tem H no meio.

Fernanda Coelho

Escritora convidada

JÚLIA

Chegava Julho,
mas não chegava Júlia,
andava devagar, quase parando...
Júlia,
ta na hora do recreio!,
chamou a amiga Tina.

Júlia andava lentamente,
como um mandruvá,
mas enquanto ela andava,
em tudo reparava.

Viu um gafanhoto
em cima de um tijolo
e formigas pequeninas
todas reunidas em volta de um bolo.

Júlia, então, refletiu:
“Se as formigas dividem o bolo
com suas outras amigas,
vou dividir meu lanche ao meio
e dar pra Tina no recreio”.

Pedro Bandeira

Escritor de livros infantojuvenis

O MONSTRO DO MAR

Começo de férias, os irmãos Elisa e Cecéu não precisavam acordar cedo para ir à escola. Mesmo assim, eles pulavam logo cedo da cama, mas para ir à praia. Naquela manhã, mal o sol tinha começado a esquentar a areia, Elisa e Cecéu já estavam andando pela beira do mar para aumentar sua coleção de conchinhas.
Mas, andando por todos os lados, era até difícil descobrir conchinhas no meio de tanto lixo...
– Ah, Cecéu! Nessa praia tem mais garrafa, saco plástico e lata enferrujada jogados na areia do que conchinhas!
– É mesmo, Elisa. Que sujeira! Vamos para aquele lado. Lá nas pedras. Aposto que a gente vai encontrar uma porção de caramujos. Daqueles grandões!
– Vamos passar para o outro lado, Cecéu – sugeriu Elisa, quando chegaram às rochas. – Cuidado com as ondas, hein?
Subiram nas pedras redondas, mal podendo conversar por causa do barulho que as ondas faziam ao chocar-se contra os rochedos. Mas, no meio daquele ruído, os dois ouviram outro, bem diferente, bem baixinho...
– Ei, Elisa! Está ouvindo? Parecem soluços...
– É mesmo! Vêm daquele lado. Tem alguém chorando!
Começavam a descer pelas pedras, em direção ao mar, quando Cecéu apontou:
– Veja, é uma menina!
– Menina, Cecéu? – disse Elisa, arregalando os olhos de espanto. – É só a metade de uma menina, o resto é peixe! Encontramos uma sereiazinha!
– Uma sereiazinha! – admirou-se Cecéu. – Uma sereia... de verdade!
Que coisa mais linda! Deitada nas pedras, bem onde as ondas arrebentavam, estava uma sereia-menina!

Silvia Orthof

Escritora de livros infantojuvenis

cordel adolecente, óxente!

Porque o primeiro beijo
é coisa muito esperada:
tem que ser algo de manso,
remanso, lagoa d’água...

Tem que ter um certo tempo,
coragem não revelada,
um perfume de jasmim,
um não s’esqueça de mim...

Gustavo Vilela

Publicitário e escritor de livros infantojuvenis

O Menino Que Tinha Tudo.

O Felipe gostava de brincar com os brinquedos que o pai dele sempre comprava.
As outras crianças não tinham muitos brinquedos, mas sempre estavam inventando
e construindo os próprios. Mas o Felipe não gostava,
então passou a preferir brincar sozinho. No dia do seu aniversário,
Felipe pensou: “vou ganhar tantos presentes que aquela turma vai morrer de inveja!”
Mas as crianças não tocaram a campainha. Foram direto para a cesta e pegaram todas
aquelas caixas vazias de presentes gigantes. E o tempo passou.
As crianças cresceram e continuaram amigas. Um dia,
andando pelo bairro, eles viram o Felipe comemorando
mais um aniversário em sua casa.
Havia presentes e pessoas mas, dessa vez,
eram as coisas em volta do Felipe que pareciam ser de papelão.

Fernanda Coelho

Escritora convidada

VIAGEM INESPERADA

Do centro de um buraco negro podiase escutar com clareza um Vapt Vupt que se repetia e aumentava de velocidade loucamente: Vapt Vupt, Vapt Vupt, Vapt Vupt, VAPT VUPT!

De repente um tremor tomou conta do ambiente escuro. O buraco começou a girar e ela também. Ficou desesperada, sem saber o que poderia acontecer. Bolhas gigantes furtacor começaram a sair do centro do buraco e estavam por todo lado.

-Agora tudo faz sentido! ela pensou, como se tivesse descoberto a América.

Parecia mágica. Sentiu seu corpo minúsculo flutuar: estava dentro de uma bolha de sabão! A bola flutuante a levava em direção a uma tampa aberta. Percebeu, então, que na verdade estava era dentro de uma máquina de lavar. Isso mesmo, uma MÁQUINA DE LAVAR!

Ao sair do buraco, passou pela janela e foi levada pelo vento até um parque de diversão. Viu um carrossel, uma roda gigante e quase raspou na careca de um palhaço. Tudo era tão novo e magnífico!

Eis que então, o vento bateu forte e a bolona explodiu. Ela tão pequena, tão fraquinha, pensou que sua morte havia chegado. Caiu, caiu, caiu, caiu e despencou em uma nuvem deliciosa, macia e corderosa. Para sua sorte, ela aterrissou bem em cima de um algodão doce. Não tinha nada neste mundo que ela amasse mais do que açúcar.

-Ai, quando eu contar pro pessoal do formigueiro ninguém vai poder acreditar!

Galeria de fotos

Histórias que voam de mão em mão


Continue a espalhar essa ideia